A leitura de histórias com crianças pequenas é um dos momentos mais ricos para desenvolver linguagem, compreensão e gosto pelos livros. No entanto, a forma como o adulto conduz esse momento faz toda a diferença.
No último artigo que falei da estratégia CROWD, explorei o que é a estratégia e porque é considerada uma das técnicas mais eficazes da leitura dialogada. Também aprofundei como cada tipo de pergunta ajuda a desenvolver diferentes competências linguísticas.
Neste artigo, vou dar um passo mais longe mostrando como aplicar a estratégia CROWD na prática, com exemplos simples e execuíveis que podem ser utilizados no jardim de infância ou no 1.º ciclo.
A ideia central é muito simples: transformar a leitura numa conversa ativa entre adulto e criança.
Então surge a seguinte questão:
Porque é que as perguntas são tão importantes na leitura?
Quando um adulto lê uma história sem interação, a criança assume um papel relativamente passivo. Ouve, observa as imagens e acompanha a narrativa, mas raramente tem oportunidade de processar profundamente a informação. Contudo, a leitura dialogada propõe algo diferente. Isto é, o adulto faz perguntas, convida a criança a completar ideias, relacionar acontecimentos e expressar opiniões. Dessa forma, a criança tem oportunidade de:
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organizar o pensamento
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desenvolver a compreensão narrativa
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aprender a explicar ideias
Este tipo de interação tem sido amplamente estudado na investigação sobre literacia emergente, que mostra que a qualidade das interações linguísticas é um fator determinante para o desenvolvimento da linguagem. E é por esse motivo que a estratégia CROWD ganha destaque.
Agora vamos ver como utilizar a CROWD durante a leitura de um livro infantil.
Imaginemos que estamos a ler um livro simples sobre um coelho que perdeu a sua cenoura no jardim. A partir desta história, podemos usar vários tipos de perguntas.
1. Perguntas de completar (Completion)
Estas perguntas convidam a criança a terminar frases ou expressões e são muito úteis com crianças pequenas porque reduzem a dificuldade da resposta. Um exemplo durante a leitura pode ser:
“O coelho estava com muita fome e queria encontrar a sua…?”
A criança completa:
“Cenoura!”
Qual o objetivo deste tipo de pergunta?
É possível com esta pergunta reforçar vocabulário, trabalhar estruturas linguísticas e envolver a criança na leitura.
Além disso, quando a criança antecipa palavras, começa a perceber padrões na linguagem escrita.
2. Perguntas de recordação (Recall)
Este tipo de perguntas podem ser feitas durante ou após a leitura e permitem à criança que recordar acontecimentos da história. Continuando com a história, uma exemplo de perguntas pode ser: “Lembras-te onde o coelho procurou primeiro a cenoura?” ou “O que aconteceu depois de ele falar com a tartaruga?”
Estas perguntas ajudam a desenvolver a memória narrativa, a compreensão de sequência de acontecimentos e a organização do pensamento.
No jardim de infância, esta competência é essencial para preparar as crianças para atividades de reconto de histórias.
3. Perguntas abertas (Open-ended)
As perguntas abertas não têm uma resposta única e incentivam a criança a observar e descrever o que vê. Por exemplo: “O que está a acontecer nesta imagem?” ou “O que achas que o coelho está a pensar?”.
Estas perguntas promovem a linguagem descritiva, a construção de frases mais completas a interpretação de imagens.
São particularmente eficazes com livros ilustrados ricos em detalhes.
4. Perguntas WH (Quem, O quê, Onde, Quando, Porquê)
Estas perguntas ajudam a criança a compreender informação específica da narrativa. Exemplos destas perguntas adaptadas à história são: Quem encontrou a cenoura? Onde estava escondida? Porque é que o coelho estava preocupado?
Estas perguntas são muito utilizadas pelos educadores porque ajudam a verificar a compreensão literal da história. No entanto, quando combinadas com outros tipos de perguntas CROWD, tornam a leitura muito mais rica.
5. Perguntas de distanciamento (Distancing)
Este tipo de pergunta liga a história à vida real da criança. Alguns dos exemplos deste tipo de perguntas são: “Já perdeste alguma coisa importante como o coelho?” ou “O que farias se estivesses no lugar dele?”
As perguntas são extremamente importantes porque ajudam a criança a relacionar histórias com experiências pessoais, a desenvolver pensamento crítico e a compreender emoções e decisões.
Além disso, muitas vezes são estas perguntas que geram conversas mais interessantes durante a leitura.
Uma das preocupação dos colegas é "Se fizer muitas perguntas, a história perde ritmo?"
A resposta está no equilíbrio e algumas sugestões práticas que proponho são:
✔ escolher 2 ou 3 momentos-chave da história
✔ variar tipos de perguntas
A leitura dialogada não deve parecer um interrogatório. Deve ser uma conversa natural sobre a história.
Ao longo do tempo neste espaço, temos explorado várias dimensões da literacia emergente, como por por exemplo, no artigo: “Literacia no Jardim de Infância: O Que os Educadores nos Revelam sobre as Práticas de Leitura e Escrita” foi possível perceber que muitos educadores valorizam a leitura de histórias, mas nem sempre utilizam estratégias estruturadas de interação durante a leitura.
A estratégia CROWD pode ser precisamente uma forma simples de enriquecer essas práticas. Da mesma forma, no artigo sobre consciência fonológica no jardim de infância, vimos que o desenvolvimento da linguagem oral é um dos pilares da aprendizagem da leitura. A leitura dialogada contribui diretamente para esse desenvolvimento, porque aumenta a exposição a vocabulário, a produção verbal das crianças e a compreensão narrativa.
Na próxima vez que ler uma história às crianças, experimente isto:
Escolha três perguntas CROWD diferentes e use-as durante a leitura e observe como as crianças respondem, que tipo de respostas surgem e que conversas aparecem espontaneamente. Muitas vezes, essas pequenas interações transformam completamente o momento de leitura.
E agora gostava de ouvir a sua experiência.
Quando lê histórias às crianças:
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costuma fazer perguntas durante a leitura?
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que tipo de perguntas resultam melhor?
Partilhe nos comentários. A troca de práticas entre educadores é uma das melhores formas de melhorar o nosso trabalho pedagógico.
Estratégias reais para desafios reais na sala de aula.
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