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Literacia no Jardim de Infância: O Que os Educadores nos Revelam sobre as Práticas de Leitura e Escrita

A literacia não começa no 1.º ano de escolaridade — começa muito antes. No jardim-de-infância, as crianças entram em contacto com a linguagem escrita de forma natural e exploratória, construindo perceções, hipóteses e representações que serão fundamentais para a sua aprendizagem formal futura. É precisamente esse espaço — onde se “prepara o caminho” para aprender a ler e escrever — que está no centro de um estudo profundo sobre as práticas de literacia nos jardins de infância portugueses.

O que foi estudado e porquê

O estudo, desenvolvido em 2020, envolveu 859 educadores de infância de todas as regiões de Portugal, maioritariamente em estabelecimentos públicos, refletindo uma vasta experiência profissional de quem acompanha regularmente crianças de 3, 4 e 5 anos. Os investigadores procuraram compreender:

✔ como os educadores organizam e gerem o ambiente educativo e a rotina diária
✔ como trabalham a linguagem e a consciência linguística
✔ de que forma contam e leem histórias
✔ que estratégias usam para ajudar as crianças a ler e a escrever

O objetivo era perceber não apenas o que se faz, mas com que regularidade e intencionalidade estas práticas ocorrem.

A literacia antes da escola formal

O relatório lembra algo essencial: a aprendizagem da leitura e da escrita não começa no 1.º ano. Antes disso, as crianças já se interrogam sobre a linguagem escrita — observam marcações gráficas, testam hipóteses sobre convenções escritas e começam a atribuir sentido às formas e funções do texto.

Esta construção de conceitos funcionais, figurativos e conceptuais não é automática nem universal. Depende da qualidade, frequência e valor das experiências que as crianças vivenciam no seu contexto educativo — nomeadamente através das interações com os educadores.

Organização do ambiente educativo e rotinas

Um dos pontos centrais do estudo é a perceção de que a organização do espaço e do tempo pedagógico influencia diretamente as oportunidades de exploração da linguagem. Um ambiente rico em recursos livres e organizados — com zonas de leitura, materiais acessíveis e áreas dedicadas à linguagem escrita — facilita a participação das crianças em atividades espontâneas e dirigidas que promovem o contacto com a escrita.

A gestão da rotina diária também conta: atividades regulares que envolvem leitura de etiquetas, listas, calendários, jogos de rimas ou pequenas produções de escrita tornam a literacia parte natural do dia a dia, e não apenas uma tarefa pontual. 

Literacia no Jardim-de-Infância: O Que os Educadores nos Revelam sobre as Práticas de Leitura e Escrita 

Linguagem oral e consciência linguística

Os educadores destacaram, no estudo, várias práticas voltadas para a linguagem oral — base de toda a literacia emergente. Estas incluem:

Trabalhar a consciência fonológica, lexical e morfológica desde cedo ajuda as crianças a perceber que as palavras são unidades com sentido e estrutura, facilitando o seu percurso posterior na leitura e escrita.

Contar e ler histórias

A leitura de histórias ocupa um lugar central nas práticas observadas. Mas não se trata apenas de passar “um momento agradável”. Os educadores relatam que a forma como as histórias são lidas e exploradas faz diferença: fazer perguntas, incentivar antecipações, explorar imagens, relacionar o texto com experiências pessoais ou recontar partes da história são estratégias que transformam a leitura de um momento passivo em numa experiência ativa de construção de sentido.

Estratégias explícitas para leitura e escrita

Outra área analisada foram as estratégias que os educadores afirmam utilizar para “ajudar a ler e a escrever”. Entre elas, destacam-se:

  • atividades de reconhecimento de letras e sons

  • jogos de associação entre grafemas e fonemas

  • escrita de listas, nomes e palavras conhecidas

  • exploração de textos funcionais (cartazes, mensagens, etiquetas)

Estas práticas são indicações de um trabalho intencional e sistemático de literacia, que ultrapassa a simples leitura de histórias e integra elementos próprios da cultura escrita nas rotinas da sala de aula.

O que isto nos diz como educadores

O que este estudo nos revela é que, para além de “ler histórias”, existem muitos aspetos da prática educativa que contribuem para um desenvolvimento sólido das bases da literacia:

  • Ambientes ricos e acessíveis facilitam a exploração autónoma da linguagem escrita.
  • Rituais diários com foco na linguagem ajudam a criar familiaridade e interesse.
  • Estratégias pedagógicas conscientes favorecem a consciência linguística e cognitiva das crianças.
  • Interações mediadas pelos educadores tornam o significado mais claro e contextualizado.

Estes elementos, quando intencionalmente integrados, diminuem desigualdades e promovem trajetórias de aprendizagem mais sólidas quando as crianças entram no 1.º ciclo.

Uma mensagem para a prática

Como profissionais da educação, é essencial reconhecer que a literacia emergente é um processo ativo e social. Não acontece apenas quando mostramos livros ou fazemos atividades específicas. A literacia nasce da interação diária com a linguagem, quando a criança se envolve com palavras, sons, textos e, sobretudo, quando encontra mediadores que valorizam e ampliam estas experiências.

Ao refletirmos sobre a nossa prática dos educadores de infância, este estudo é um convite a olhar para além dos momentos de leitura formal e a integrar a linguagem escrita em múltiplos contextos significativos — desde as rodas de conversa até às atividades lúdicas, passando pela organização do espaço e pelo plano da rotina.


Estratégias reais para desafios reais na sala de aula. 

Prof.ª Ana Lima

Especialista em dificuldades de aprendizagem da leitura e da escrita, dedicada à promoção da literacia e ao apoio a alunos com dificuldades de leitura.

 

Para questões, partilha de experiências ou pedidos de colaboração profissional: programaletrasmais@gmail.com 

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